Losandro Antônio Tedeschi - Sirley Lizott Tedeschi 94 que dele se produz, as “má quinas de guerra”10 que nele tentam se conectar, os sentidos que nele marcam, os silêncios que por ele falam, os vestígios. Por outro lado, ao resistirem ao enquadramento do mandato patriarcal, o corpo das mulheres potencializa um conjunto de forças capazes de provocar mudanças extraordinárias nos modos de existência instituídos. Diante disso, podemos dizer que, em muitos momentos, a história das mulheres foi construída pelo não factual, pelo não dito. Logo, o conhecimento histórico feminino se situa em um território aquém do instituído. É no interior desse território – desse “espaço outro” – que as práticas femininas, enquanto acontecimento, permanentemente atualizam forças, lutas, embates e contradições entre diferentes interesses e significados. O acontecimento, diz Deleuze (1998) é sempre produzido “por corpos que se entrechocam, se cortam ou se penetram, a carne e a espada, mas tal efeito não é da ordem dos corpos, batalha impassível, incorporal, impenetrável, que domina sua própria realização e domina sua efetuação” (Deleuze; Parnet, 1998, p. 78). Então, as práticas femininas são acontecimento porque há nelas “uma parte que sua realização não basta para realizar, um devir em si mesmo que está sempre, a um só tempo, nos esperando e nos precedendo como uma terceira pessoa do infinitivo, uma quarta pessoa do singular” (Deleuze; Parnet, 1998, p. 78). Ou seja, as práticas femininas, enquanto acontecimento, são movimento, devir; e trazem consigo a possibilidade de mudança nos sistemas de pensamento hegemônicos. Então, podemos dizer que na história das mulheres as resistências foram fundamentais para a criação de espaços outros para viver, pensar; espaços ainda não capturados pelos dispositivos de saber-poder. As resistências das mulheres, neste caso, são um gesto político, uma potência política que, do interior das relações de poder, nasce como potência de criação da vida – um desafio aos sistemas instituídos. Afirmamos isso porque pensamos com Foucault (2008) que a “política não é nada mais, nada menos do que o que nasce com a resistência a governamentalidade, a primeira sublevação, o primeiro enfrentamento” (Foucault, 2008, p. 287). E a potência política das práticas de resistência que as mulheres desenvolvem tem a força de desestabilizar as linhas estabelecidas, de deslocar as relações, liberando a vida para que se organize cada vez mais em novas formas e com novas práticas. 4- Algumas considerações Os espaços de “vida outra” forjados pelas mulheres são, na história das mulheres, um ato criativo de resistência. Através das fissuras, das linhas de fuga, as mulheres se conectaram a devires que levaram a acontecimentos históricos e a novas formas de vida. Compreender esses espaços em seu potencial libertário não apenas permite a autonomia, mas reafirma práticas que sempre foram, na história das mulheres, o reflexo 10 Deleuze (2013) define a má quina de guerra “como um agenciamento linear construído sobre linhas de fuga. Nesse sentido, a máquina de guerra não tem, de forma alguma, a guerra como objeto, tem como objeto um espaço muito especial, espaço liso, que ela compõe, ocupa e propaga. O nomadismo é precisamente essa combinação máquina de guerra-espaço liso” (Deleuze, 2013, p. 47).
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