As mulheres na história: Subversão, desordem, movimento e potência 93 As mulheres, através das práticas de resistência que colocam em movimento na história, criam, cada qual a sua maneira, modos singulares de existências.9 Ao escreverem/viverem sua história - sendo ousadas e recatadas, desbocadas e pudicas, sexuais e etéreas - passam a produzir um devir político ou, como diz Deleuze (2012) um pensamento “nômade”, aberto às conexões, um pensamento que se desvia dos processos de subjetivação manipulantes e ditantes de regras e condutas do patriarcado. São gestos e movimentos que produzem novos modos de se conduzirem, de governarem a si mesmas, que criam estratégias e práticas de resistências como ato político. Ao pensarem, agirem e se posicionarem no mundo de outra maneira, as mulheres se inventam no imprevisível de fugas-intensivas. Livres, essas mulheres procuram escapar das maquinarias que o poder aponta em cada passagem da história; desfazem as amarras engessantes que impedem o pensar e a ação de corpos diferentes. Elas produzem, no próprio desvio, uma maneira de seguir adiante sem serem capturadas; elas transformam esse desvio em uma aprendizagem potente para suas vidas; elas criam existências possíveis. São mulheres consideradas “infames”, são corpos insubmissos que abalam, como afirma Segato (2012), as velhas práticas da colonialidade do gênero. Os corpos que transgridem o espaço normativo, que transgridem a razão colonial, tornam-se problema para a sociedade patriarcal. Na rua, na esquina, na feira, nos jornais, na revolução, na passeata esses corpos abalam, escandalizam; são segundo Butler (2000) “corpos que pesam”; são corpos desviados, transgressores e racializados que questionam estruturas profundamente enraizadas porque não aceitam uma vida que quer confinar. Por isso, na história das mulheres – lugar de inscrição dos acontecimentos –, o corpo é “o lugar prá tico de controle social” (Foucault, 1988, p. 15) e também o lugar/espaço de resistência, lugar de mando, de influência. O corpo da prostituta, da escrava, da louca, da histérica, da mendiga, da solteirona era, por um lado, o lugar de ataque por parte das investidas do poder, já que, portadoras do exótico, seu corpo revelava outra performance, a exuberância do prazer, do desvio mental, da outra cor, dos afloramentos do desejo, de gestos e sinais que fugiam ao controle normalizador; por outro lado, o corpo dessas mulheres também representava a possibilidade de mudança, a capacidade de desestruturar e abalar os ultrapassados códigos morais que sustentavam as relações de gênero. Ainda hoje o corpo das mulheres continua sendo na história, por um lado, o espaço que ocupa, suas fronteiras, as intervenções que nele se operam, a imagem e as narrativas 9A história do Brasil está repleta de exemplos de mulheres que criaram modos singulares de existência: a escritora Maria Firmina dos Reis, a artista Tarsila do Amaral, Leila Diniz, Chiquinha Gonzaga, Patrícia Galvão, Nizia Floresta, dentre inúmeras outras. Mulheres que adentram um espaço proibido, por águas desconhecidas, e se aventuram, ousam, experimentam, se fazem perceber em um mundo que não as percebem, articulam a si próprias suas experiências de mulher. Constroem uma expressão própria que, através de uma fissura, uma fenda, uma linha de fuga, traçam um outro espaço, um outro existir.
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