Centro de estudios, la mujer en la historia de américa latina

Losandro Antônio Tedeschi - Sirley Lizott Tedeschi 92 de Mulheres Brasileiras e a Marcha Mundial das Mulheres, dentre tantos outros acontecimentos. Embora esses movimentos tenham como parâmetro o mundo cotidiano das mulheres – a família, a localidade e suas condições de vida –, que caracteriza a forma tradicional de identificação social da mulher, eles propiciaram uma visibilidade para as mulheres como sujeitos políticos. Ao questionarem, de diferentes maneiras, a condição da mulher e pôr em discussão a identidade de gênero, fazem circular um conjunto de enunciados que atravessam os discursos instituídos, que apontam os limites das verdades estabelecidas e, desse modo, possibilitam a criação de outros modos de vida – vidas não mais abafadas pelo poder que controla, normaliza e naturaliza. Ao questionarem as biopolíticas do estado – neste caso, no que se refere, entre outros, ao direito ao voto, aos direitos sexuais e reprodutivos, ao salário maternidade e ao direito à aposentadoria – essas mulheres questionam um conjunto de relações de poder empenhadas em produzir uma conformação dos corpos e dos sujeitos, empenhadas em produzir subjetividades que se adaptem à cultura patriarcal e criem possibilidades de vida para além das técnicas disciplinares e das biopolíticas. São movimentos/acontecimentos de mulheres que rompem com aquilo que historicamente foi estabelecido como “correto”, como “moralmente aceito”, como norma geral que rege a vida; são movimentos/acontecimentos que marcam certos espaços pela transgressão, pelo desvio ou, como diz Deleuze (2009), pelas heterotopias de desvio. Ao questionarem o mandato patriarcal (Segato, 2003), as mulheres estão questionando o conjunto de relações de forças hegemônicas na sociedade e, com isso, fendem o sentido comum das coisas; fazem irromper uma multiplicidade de possibilidades, de forças singulares; fazem da sociedade patriarcal um espaço de instabilidade. Referindo-se a Foucault, Deleuze (2013) diz que toda forma de questionamento, de queixa – seja de normas, práticas, valores – “tem uma grande importância não só poética, mas histórica e social, porque exprime um movimento de subjetivação [...]. O sujeito nasce nas queixas tanto quanto na exaltação” (Deleuze, 2013, p. 193). A importância dessas ações, para Deleuze (2013), está, não no resultado que as findaria, mas na qualidade de seus cursos e na potência de sua continuação. Ao colocar em discussão os valores que norteiam a sociedade e que perpassam as práticas cotidianas – o habitus –, também questionando os reflexos disso na constituição dos sujeitos, as mulheres mostram seu descontentamento com uma prática cultural e histórica que cuidadosamente delimita, controla e regula seus corpos, seus comportamentos e suas condutas, através dos discursos religioso, político e médico. Seus questionamentos denunciam um conjunto de formas reguladas de viver, de sentir e de ser. A potência desses questionamentos consiste na possibilidade de desnaturalizar o que pensamos e visibilizar as diferentes subjetividades – insubmissas, transgressoras, rebeldes, críticas do seu próprio tempo.

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