Centro de estudios, la mujer en la historia de américa latina

As mulheres na história: Subversão, desordem, movimento e potência 91 prestar atenção nas relações de poder singulares e plurais para potencializar cada vez mais os efeitos das práticas de resistência das mulheres nos modos de invenção de si. Afinal, não temos dúvidas de que as mulheres, ao se encontrarem com o poder, inventaram novas possibilidades de vida. Nesse sentido, os espaços dados como “femininos” na história – lugar onde as coisas são organizadas, nomeadas e normalizadas a partir de critérios instituídos – é também o espaço em que “vidas outras” se constituem; vidas que fazem emergir novas relações entre o sujeito e a verdade de seu tempo; novas relações que se criam e se recriam de maneira indefinida, inusitada, destemida. Então, a história das mulheres, mesmo marcada pelo patriarcalismo, também se constitui de ações que podemos chamar, segundo Deleuze e Guattari (2014), de menores7, de desviantes, que ousam se conectar ao devir, ao acontecimento e à irrupção do novo. Esses espaços heterotópicos forjados pelas mulheres, mesmo que menores e com ações frágeis, podem fazer surgir o acontecimento transgressivo e criador. Nesses espaços de fragilidade concreta, as mulheres se movimentam nas margens e para as margens dos saberes e dos poderes estabelecidos, buscando construir outros lugares, perpassados por outros saberes e outras relações de poder. Essas práticas de resistência impulsionam a desconstrução8 dos saberes e dos poderes que controlam e normalizam; impulsionam a produção incessante de alternativas contra o mandato patriarcal (Segato, 2013). Muitas “artes de viver” e de “saber” na história das mulheres produziram um pensamento que, por seu caráter fugidio, intempestivo, mantém uma relação direta com o movimento/acontecimento. É o caso das lutas feministas no Brasil – como as batalhas pelo voto e pelo livre acesso das mulheres ao campo de trabalho, encampadas pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino no ano de 1922; pela aprovação da lei do divórcio e pela criação do Movimento Feminino pela Anistia no ano de 1975, considerado o Ano Internacional da Mulher. É o caso também, nos anos 1980, do Movimento das Margaridas – mulheres trabalhadoras rurais – que através de intensa mobilização conquistaram o direito à cidadania, à aposentadoria rural e ao salário maternidade; das redes de diálogos intra e inter movimentos feministas que se constroem através de Organizações não Governamentais (ONGs); das redes de articulação, como a Articulação 7 Quando falamos em “ações menores” e “ações maiores”, não estamos qualificando umas e desqualificando outras. Entendemos esses conceitos a partir do que dizem Deleuze e Guattari (2014) na obra Kafka: por uma literatura menor. Os autores criaram o conceito de literatura menor como dispositivo para analisar a obra de Frantz Kafka, que é considerada revolucionária por subverter a língua alemã. Nesse sentido, uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas sim o que uma minoria faz em uma língua maior. Equivale a dizer que “menor não qualifica mais certas literaturas, mas as condições revolucionárias de toda a literatura no seio daquela que se chama grande (ou estabelecida) ” (Deleuze; Guattari, 2014, p. 39). 8 Entendemos o conceito de desconstrução conforme Derrida e Roudinesco (2004). Eles dizem que desconstruir uma narrativa “consiste em desfazer, sem nunca destruir, um sistema de pensamento hegemônico e dominante. Desconstruir é de certo modo resistir à tirania do Um, do logos, da metafísica (ocidental) na própria língua em que é enunciada, com a ajuda do próprio material deslocado, movido com fins de reconstruções cambiantes (Derrida & Roudinesco, 2004, p. 9).

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