Centro de estudios, la mujer en la historia de américa latina

Losandro Antônio Tedeschi - Sirley Lizott Tedeschi 90 produzido valores e representações capazes de dar a perceber diferentes formas de vida, diferentes interpretações, outros códigos de conduta e referências simbólicas. Rago (2014) diz que Foucault, ao entender o discurso como prática discursiva e não discursiva, como materialidade que constitui os objetos e sujeitos de que fala, desafiou a escrita da história a buscar os múltiplos sentidos que podem ser encontrados em cada gesto, atitude, ação, sentimento ou emoção feminina, assim como nas múltiplas formas de resistência. Pelas margens da história, as mulheres desenvolveram/desenvolvem movimentos de resistência a uma historiografia que excluiu/exclui o privado, o cotidiano, as miudezas da vida, tratando-as como não história. Essas resistências têm desestabilizado os discursos que historicamente silenciaram e invisibilizaram diversos grupos sociais e culturais. Nesse sentido, podemos dizer que essa “história outra” forjada pelas mulheres se dá nas linhas de fuga, nos desvios capazes de subverter o poder patriarcal que controla, normaliza e coage. É no desvio da norma que o poder das mulheres se torna um poder imanente, desterritorializado. Para desterritorializar incessantemente o poder, é preciso reparar, como afirma Thébaud (2013), os “silêncios patriarcais do passado” (Thébaud, 2013, p. 71). De acordo com Perrot (2005), essas relações de poder – imanentes, desterritorializadas – se manifestam na história das mulheres através dos silêncios e dos gestos; nas ruas, no fazer cotidiano e na escrita do privado. Esses espaços comuns do cotidiano das mulheres são dotados de elementos que mostram a existência de outras dimensões de poder nas relações sociais – um poder imanente, cotidiano, “microbiano”, que se constitui, segundo Certeau (1996), através de: [...] práticas microbianas, singulares e plurais, [...] procedimentos que, muito longe de ser controlados ou eliminados pela administração panóptica, se reforçam em uma proliferação legitimada, desenvolvidos e insinuados nas redes de vigilância, combinados segundo táticas ilegíveis, mas estáveis a tal ponto que constituem regulações cotidianas e criatividades sub-reptícias que se ocultam somente e graças aos dispositivos e aos discursos, hoje atravancados, da organização observadora. Esse caminho poderia inscrever-se como uma sequência, mas também como a recíproca da análise que Michel Foucault fez das estruturas de poder. [...] Mas a esses aparelhos produtores de um espaço disciplinar, que práticas do espaço correspondem, do lado onde se joga (com) a disciplina? Na conjuntura presente de uma contradição entre o modo coletivo da gestão e o modo individual de uma reapropriação, nem por isso essa pergunta deixa de ser essencial, caso se admita que as práticas do espaço tecem, com efeito, as condições determinantes da vida social (Certeau, 1996, p. 175). Isso mostra que, na história, ao mesmo tempo em que atuam processos de normalização, também são colocados em ação os movimentos dos “cuidados de si” e das “artes da existência” que as mulheres produzem e que, em certa medida, ainda permanecem invisibilizados. Por isso, precisamos estar atentos, conforme disse Foucault (1983), para “ouvir o ronco surdo da batalha” (Foucault, 1993, p. 269), precisamos

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