As mulheres na história: Subversão, desordem, movimento e potência 89 de existência que tematiza/problematiza a moral de seu tempo, cria embate político, postura ética; vidas que se constituem fora dos critérios da moralidade epistêmica normativa. Afinal, para Foucault, as práticas de resistência têm a potência de atravessar e interrogar os modos de vida instituídos e de produzir outros sentidos. Deleuze (2013) diz que as resistências são linhas desobedientes que não cessam de variar e que se movimentam desfazendo os acordos já estabelecidos. Como linhas desobedientes, linhas de fuga5, desterritorializações, são elas que vêm em primeiro lugar – embora não se trate de um primado cronológico. Para Deleuze (2013), são precisamente as linhas de fuga, as desterritorializações que os dispositivos de poder vão tentar corrigir, apreender, cingir, em um movimento de reterritorialização. Por isso ele diz que o que se coloca como problema é saber “quais são os fluxos de uma sociedade, quais são os fluxos capazes de subvertê-la, e qual é o lugar do desejo em tudo isso?” (Deleuze, 2006, p. 292). 3- Sobre práticas de resistência na história das mulheres: a invenção de outros modos de vida. Deleuze (2013) diz que os processos de subjetivação, de constituição de si, em Foucault, “designam a operação pela qual indivíduos ou comunidades se constituem como sujeitos, à margem dos saberes constituídos e dos poderes estabelecidos, podendo dar lugar a novos saberes e poderes” (Deleuze, 2013, p. 193). Então, ao subverter os discursos marcados pelo poder patriarcal, as mulheres reivindicam modos específicos de ser sujeito, transpõem, driblam, constroem linhas de fuga, produzem saberes/poderes particulares, locais, regionais, diferenciados, não unânimes, politicamente divergentes e convocam a criação de uma “história outra”. Trata-se, agora, de uma história que não aprisiona seus corpos, seus pensamentos, suas sensibilidades. Por isso a história das mulheres pode ser entendida como “história outra”, que possibilita “vidas outras”; uma história que cria e potencializa espaços heterotópicos6; que inaugura uma nova relação com as singularidades; que produz uma crítica historiográfica dos “regimes de saber”; que questiona a forma como os saberes históricos são monopolizados e impedidos de circular livremente; que suspeita/suspende as respostas “científicas” e administrativo-burocráticas para a pergunta “quem somos nós?”. Dizemos isso porque a história das mulheres se constrói a partir de narrativas históricas que não se enquadram na episteme discursiva patriarcal. Essas narrativas têm 5 Gilles Deleuze (1998) diz que “a linha de fuga é uma desterritorialização. [...] fugir não é renunciar às ações, nada mais ativo que uma fuga. É o contrário do imaginário. É também fazer fugir, não necessariamente os outros, mas fazer alguma coisa fugir, fazer um sistema vazar como se fura um cano. (...). Fugir é traçar uma linha, linhas, toda uma cartografia. Só se descobre mundos através de uma longa fuga quebrada” (DELEUZE, 1998, p. 49). 6 De acordo com Foucault (1984) o espaço heterotópico é o “[...] espaço do fora, no qual somos atraídos para fora de nós mesmos, no qual decorre precisamente a erosão de nossa vida, de nosso tempo, de nossa história, esse espaço que nos corrói e nos sulca é também em si mesmo um espaço heterogêneo [...] aquele no qual se localizam os indivíduos cujo comportamento desvia em relação à média ou à norma exigida” (Foucault, 1994, p. 416).
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