Losandro Antônio Tedeschi - Sirley Lizott Tedeschi 88 (2013), “dar uma curvatura à linha, fazer com que ela retorne sobre si mesma, ou que a força afete a si mesma” (Deleuze, 2013, p. 145). A constituição do sujeito ético faz emergir algo que escapa dos poderes e dos saberes, embora deles derive. Através disso, seria possível obter os meios de viver; o que de outra forma não seria possível. No entanto, esse movimento de pensamento feito por Foucault, na tentativa de determinar um espaço possível de resistência e de constituição de si, não representa um retorno ao sujeito como forma de identidade. A esse respeito, Deleuze (2013) diz que; É idiota dizer que Foucault descobre ou reintroduz um sujeito oculto depois de o ter negado. Não há sujeito, mas uma produção de subjetividade: a subjetividade deve ser produzida quando chega o momento, justamente porque não há sujeito. E o momento chega quando transpomos as etapas do saber e do poder (Deleuze, 2013, p. 145). Deleuze (2013) diz que a subjetivação para Foucault é uma “operação artista” que se distingue do saber e do poder, que não se localiza no saber e no poder; se “distingue de toda a moral, de todo o código moral: ela é ética e estética, por oposição à moral que participa do saber e do poder” (Deleuze, 2013, p. 146). Em uma “estética da existência”, – ou seja, quando o indivíduo dá a si mesmo e a sua vida uma forma, quando a ação que o indivíduo realiza sobre si mesmo o constitui como sujeito – trata-se não mais de um ajustamento a norma à qual o sujeito se submete, mas sim da criação de uma forma de vida. Negando a existência de uma essência humana dada e partindo do entendimento nietzschiano de que os seres humanos se constituem a si mesmos, Foucault, com a estética da existência, destaca a dimensão estética – forma, estilo – que cada um atribui a si mesmo e remete-nos à ideia de sujeito em constante mudança; um sujeito perene, que se transforma – e o sentido dessa transformação nunca é definido a priori. Vilela (2006) diz que a forma de existência estética, gerada num intenso desejo de liberdade, “passa a delinear-se através das práticas e das técnicas de condução da vida – as tecnologias do eu – que dão origem a comportamentos através dos quais se define um estilo de existência” (Vilela, 2006, p. 123). Neste caso, para Gros (2010), o sujeito se autoconstitui ajudando-se com técnicas de si, no lugar de ser constituído por técnicas de saber e de poder. Podemos entender as formas de resistência às diversas relações de poder na história das mulheres como uma dessas práticas e técnicas – “tecnologias do eu” – capazes de fazer emergir comportamentos através dos quais vão se constituindo aquilo que Foucault denomina de “vidas outras”. Para o autor, “vidas outras”4 refere-se a um modo 4 Na obra A coragem da Verdade, Michel Foucault (2011), ao referir-se ao cinismo antigo, traz o conceito de “vida outra”. Para os cínicos, diz Gros (2011), referindo-se a Foucault, “a verdadeira vida não é mais representada como essa existência consumada, que levaria à perfeição qualidades ou virtudes que os destinos ordinários só ressaltam com fraco brilho. Ela se torna, com os cínicos, uma vida escandalosa, inquietante, uma vida ‘outra’, imediatamente rejeitada, marginalizada” (GROS, 2011, p. 313).
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