As mulheres na história: Subversão, desordem, movimento e potência 87 prestou atenção, ainda que por um instante, em suas queixas e em seu pequeno tumulto, e que as marcou com suas garras, foi ele que suscitou as poucas palavras que disso nos restam” (Foucault, 2015, p. 203). Mesmo que não seja possível conhecer essas vidas nelas próprias, como podiam ser em “estado livre”, Foucault (2015) diz que podemos ao menos fazê-las falar por meio das poucas palavras que constam nesses documentos, ainda que parciais, táticas e mentirosas dos jogos de poder e das relações com ele. Para Foucault (2015), mesmo diante de relações de poder que nos asfixiam – como era a vida dos “homens infames” –, a “revanche” ao poder é sempre possível, pois as relações de poder nos fazem ver e falar. Ou seja, “o ponto mais intenso das vidas, aquele em que se concentra sua energia, é bem ali onde elas se chocam com o poder, se debatem com ele, tentam utilizar suas forças ou escapar de suas armadilhas” (Foucault, 2015, p. 204). Nada indicava, diz Foucault (2015), que essas vidas infames surgissem das sombras. Foi preciso que, dentre tantos documentos dispersos e perdidos, esses fossem encontrados e lidos. Foucault (2015) vê nisso uma forma de resistência, uma chance que permite que essas pessoas desprovidas de qualquer glória surjam no meio de tantos mortos, se façam ouvir, continuem manifestando sua raiva, sua inquietação, sua vida e sua desgraça. Diz que as falas breves dessas vidas infames “que vão e vêm entre o poder e as existências, [...] são para estas o único monumento que jamais lhe foi concedido: é o que lhes dá, para atravessar o tempo, o pouco de ruído, o breve clarão que as traz até nós” (Foucault, 2015, p. 204). Isso nos leva a pensar que, ao mesmo tempo em que há uma história de normalizações/normatizações das subjetividades atuando nas diversas instituições sociais, há também, nesses mesmos espaços, uma história das resistências, dos “cuidados de si”, das “artes da existência” ou das “tecnologias do eu” sendo produzida e que, em certa medida, ainda permanece desconhecida. É o caso da história das mulheres, da vida de mulheres que, ao se defrontarem com o poder patriarcal, produziram outros modos de existência, inventaram outras possibilidades de vida. Por isso, ao mesmo tempo em que Foucault (2015) nos leva a pensar que o destino do indivíduo moderno é se chocar com o poder, que é o encontro com o poder que nos faz ver e falar, o autor também se mostra insatisfeito. Deleuze (2013) diz que Foucault não pôde ficar preso no que descobriu, ele tinha a necessidade de transpor a linha do saber-poder, passar para o outro lado, ir mais além. Embora em A vontade de saber, o autor já apresentasse pontos de resistência – que, para Deleuze (2013), o estatuto, a origem, a gênese, ainda permaneciam vagos – é a necessidade de pensar a origem desses pontos resistência que faz emergir o terceiro eixo no pensamento foucaultiano: o sujeito ético. Nesse movimento de pensamento, o que predomina não são as relações entre formas (domínio do saber), nem as relações de força com outra força (domínios do poder) e sim a relação da força com o “si” mesmo. É isso a subjetivação em Foucault, diz Deleuze
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