Centro de estudios, la mujer en la historia de américa latina

Losandro Antônio Tedeschi - Sirley Lizott Tedeschi 86 poder há resistências, que os núcleos de resistências são compatriotas das relações de poder – o que não significa dizer que estejam fadadas ao fracasso ou que sejam simplesmente subprodutos dessas relações. Embora Foucault (2015) tenha dito que o poder está sempre “ali”, que nunca estamos “fora” do poder, que não há margens para que isso aconteça, não significa dizer que se deva admitir uma forma absoluta de domínio. Para o autor, dizer que nunca se está fora do poder não significa que se está completamente capturado por suas armadilhas. No texto Poderes e Estratégias – entrevista com Jacques Rancière –, Foucault (2015a) se refere às relações de poder e às práticas de resistência da seguinte forma: Que não há relações de poder sem resistências; que estas são tão mais reais e eficazes quanto mais se formem ali mesmo onde se exercem as relações de poder; a resistência ao poder não tem que vir de fora para ser real, mas ela não é pega na armadilha porque ela é a compatriota do poder. Ela existe tanto mais quanto ela esteja ali onde está o poder; ela é, portanto, como ele, múltipla e integrável a estratégias globais (Foucault, 2015a, p. 244). Dessa perspectiva, as práticas de resistência possuem as mesmas características que as relações de poder: são móveis, produtivas, inventivas. Não representam uma libertação em relação ao poder a partir de um lugar de exterioridade deste; ao contrário, as práticas de resistência ocorrem ali mesmo onde há relações de poder – relações de poder e práticas de resistência são como as duas faces da mesma moeda. Nesse sentido, entendemos que não só as resistências podem fundar novas relações de poder, como novas relações de poder também podem dar origem a novas formas de resistência. Essas resistências fragmentadas e focais são expressas na obra A vida dos homens infames, quando Foucault (2015) se propõe a analisar um conjunto de documentos – inclusive ordens de prisão – para traçar os enviesamentos entre o discurso histórico e o movimento de singularidades. Nesta obra, o autor diz que não podemos nunca ser totalmente armadilhados pelo poder e que é sempre possível mudar suas configurações de força em contextos específicos. Ao falar sobre os dispositivos discursivos e institucionais presentes naqueles documentos, mostra como estes passam a qualificar a vida daqueles considerados infames. Vilela (2006) diz que esses textos se relacionavam com a realidade não apenas por “narrarem fatos que remetiam para existências reais e às quais se poderia atribuir uma data e um lugar, mas também porque as palavras rápidas que os compunham, mesmo que falsas ou injustas, tinham ressonância na vida concreta desses indivíduos” (Vilela, 2006, p. 110). Foucault (2015) diz que essas vidas infames – a mulher espancada, o monge escandaloso, o bêbado inveterado e furioso, o vendedor brigão e tantas outras vidas –, que teriam podido e talvez devido permanecer na invisibilidade, se tornaram visíveis quando se encontraram com o poder. Para o autor, sem esse encontro com o poder, nenhuma palavra estaria nesses documentos para lembrar o trajeto dessas vidas efêmeras e fugidias. Então, o poder que “espreitava essas vidas, que as perseguiu, que

RkJQdWJsaXNoZXIy MjgwMjMx