Losandro Antônio Tedeschi - Sirley Lizott Tedeschi 84 em Vigiar e Punir, diz que “temos que ouvir o ronco surdo da batalha” mesmo que sejamos efeito e instrumento de complexas relações de poder. É nesse sentido que propomo-nos refletir sobre a potência produtiva e criativa de práticas de resistência na história das mulheres contra os efeitos das relações de poder instituídas que assujeitam e aviltam a vida. Tomamos como referência para a análise os estudos pós-estruturalistas e os estudos feministas e destacamos principalmente as contribuições de Michel Foucault no que se refere à noção de resistência e às reflexões de Gilles Deleuze sobre a obra foucaultiana. Analisamos, em um primeiro momento, as práticas de resistência na obra de Foucault a fim de mostrar que as resistências representam um trabalho sobre si e possibilitam a criação de gestos ativos e transgressores capazes de constituir novos modos de existência, novas subjetividades. Trata-se, conforme Pellejero (2008), de compreender as práticas de resistência como potencializadoras da constituição de modos outros de existência, “da invenção de possibilidades de vida, da criação de territórios existenciais, seguindo regras facultativas, capazes de resistir ao poder como de furtar-se ao saber, mesmo se o saber intenta penetrá-las e o poder de reapropriar-se delas” (Pellejero, 2008, p. 01). Em um segundo momento, analisamos como as práticas de resistência na história das mulheres, contra os efeitos de poder do patriarcado, são potencializadoras de outros modos de existência; são forças capazes de compor outras formas de vida; vidas que agem em vez de apenas reagir às práticas instituídas. Nesse sentido, afastamo-nos das concepções que veem nas práticas de resistência apenas oposições ou reações ao poder – embora opor-se a uma dada situação também seja uma estratégia importante de luta, visto que muitas vezes nas margens de uma oposição configuram-se forças que modificam o curso dos processos estabelecidos – e buscamos ressaltar a produtividade e a positividade das práticas de resistência na história das mulheres nos modos de invenção de si. A partir das discussões desenvolvidas por Foucault e das reflexões de Deleuze sobre a obra do autor, mostramos que as práticas de resistência na história das mulheres instauram fissuras, abalos nos modos de existência instituídos – modos de existência historicamente marcados pelo patriarcado – e potencializam outras formas de vida. O desafio consiste em encontrar mecanismos para ampliar cada vez mais as ressonâncias desses abalos, dessas fissuras. Então, as estratégias informais, silenciosas e desviantes das mulheres construíram/constroem uma história feita pelas fissuras e promovem processos de subjetivação – de constituição de si mesmo. 2- Sobre poder, resistência e subjetivação em Foucault Foucault (2015) em nenhum momento trata o poder como uma entidade coerente, unitária e estável, mas de relações de poder. As relações de poder, diz Revel (2005) “supõem condições históricas de emergência complexas e que implicam efeitos
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