As mulheres na história: Subversão, desordem, movimento e potência 83 do sujeito – pesquisar as formas e as modalidades da relação consigo através das quais o indivíduo se constitui e se reconhece como sujeito. Assim, Foucault se propõe a abordar três problemas importantes que perpassam toda sua obra e correspondem a três domínios extremamente articulados em seu pensamento, de modo que não é possível compreendê-los separadamente: o saber, o poder e o sujeito. Se na década de 1970 Foucault tinha analisado as formações do saber e os dispositivos de poder, “tinha atingido esses mistos de poder-saber nos quais vivemos e falamos” (Deleuze, 2013, p.139), na década de 1980 – nos cursos A hermenêutica do sujeito, História da sexualidade: os usos dos prazeres e O cuidado de si - o foco deixa de estar nos jogos de poder-saber e se coloca nos jogos do sujeito consigo mesmo, ou seja, nos processos de subjetivação. Em uma entrevista concedida a Claire Parnet, Deleuze (2015) diz que se Foucault, em A vontade de saber, ainda estava em busca dos focos de poder que constituem os enunciados da sexualidade, normalizando ou contestando-os, em O uso dos Prazeres busca estabelecer novas relações com o saber e o poder. Mesmo que no texto A vida dos homens infames Foucault (2015) diga que “o ponto mais intenso das vidas, aquele em que se concentra sua energia, é bem ali onde elas se chocam com o poder, se debatem com ele, tentam utilizar suas forças ou escapar de suas armadilhas”, (Foucault, 2015, p. 204) ele parece não se satisfazer com isso, ele precisa, conforme Deleuze (2013), de “um pouco de possível”. Por isso, em O uso dos Prazeres, o foco está na relação consigo. O autor reorienta toda sua pesquisa – se até então havia analisado formações históricas de curta duração (séculos XVII-XIX), agora se dedica a formações de longa duração (desde os gregos) – em torno dos modos de subjetivação. Deleuze (2013) diz que isso não representa, de forma alguma, um retorno de Foucault ao sujeito; “era uma nova criação, uma linha de ruptura uma nova exploração onde mudavam as relações precedentes com o saber e o poder” (Deleuze, 2013, p. 135). Ou seja, diante do risco de um fechamento nas relações de poder – expresso por Foucault quando diz a si mesmo: “isso é bem próprio de você, sempre a mesma incapacidade de ultrapassar a linha, de passar para o outo lado, de escutar e fazer ouvir a linguagem que vem de outro lugar ou de baixo, sempre a mesma escolha, do lado do poder” (Foucault, 2015, p. 204) –, o autor faz irromper núcleos de resistência. O intento de Foucault consiste em mostrar as possibilidades que temos de constituirnos como “si”3, para além do saber e do poder. Daí podemos entender o autor quando, 3 Gallo (2015) destaca a importância conceitual da palavra “si” para Foucault. Diz que para Foucault “a relação de si consigo não é uma relação de identidade. A identidade não é uma questão para Foucault, a constituição de si mesmo não é a construção de uma identidade, mas uma maneira de estar no mundo, com os outros e consigo mesmo” (GALLO, 2015, p. 430). Na mesma perspectiva, Gros (2006) diz que o cuidado de si para Foucault não consiste em “uma exigência de solidão, mas uma verdadeira prá tica social, um intensificador das relações sociais” (GROS, 2006, p. 250). Cuidar de si, nesse caso, diz Gros (2011), é um convite ao bom governo dos homens – cuidar de si a fim de poder cuidar dos outros.
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