Regina Kohlrausch – Nathalia Maynart Cadó 329 Retomando a primeira parte da obra, “Às mulheres e aos homens do meu país”, convém salientar que ali se manifesta o desejo da autora, ou seja, a leitura do livro, porque ele é oriundo “de uma das mais dolorosas necessidades sociais”, porque “uma esperança nutro, animadora: os que meditadamente percorrerem as cartas que ali vão, dessa leitura sairão menos infensos ao divórcio e mais apiedados da mulher – a grande vítima dos absurdos e opressores preconceitos sociais”. (Oliveira, 2007, p. 27). Informa ainda que o leitor irá encontrar em cada uma das cartas “exemplos desesperadores, pungentes, que clamam pelo remédio” (2007, p. 33), ou seja, argumentos que mostram ser o divórcio pleno a melhor solução para os casos de casamentos “mal construídos”. Ao reiterar sua convicção, visando atingir a todos e todas, comenta sobre a possibilidade de essa urgência, a aprovação do divórcio pleno, ser algo transitório e que no futuro, talvez, essa necessidade desapareça. Porém, afirma a autora, nós vivemos no momento presente e não no futuro; temos que nos submeter às condições sociais da hora e não nos consolarmos com utopias sobre a humanidade do porvir, quando as misérias do presente nos fazem sentir seus aranhões. E no momento atual, a necessidade do divórcio impõe-se, aos gritos, como estes que ecoam nas páginas a seguir. (Oliveira, 2007, p. 32-33) Finalizando seu clamor aos homens e às mulheres, Andradina (2007, p. 33) afirma que seu livro “não é somente um livro de propaganda em prol do divórcio: é também um brado de indignação contra a injusta e esmagadora situação da mulher”. Nas “Cartas”, em cada uma, como já referido, antes de nomear seu destinatário, consta uma ou mais epígrafes compondo um discurso intertextual, reforçando, porque se vale dessa espécie de “discurso do outro”, que não está sozinha nessa campanha. Ao contrário, como mostrado na dedicatória do livro, ela está em sintonia com um conjunto de sujeitos, mulheres e homens, discutindo e tomando posição acerca do tema e da situação dos “casamentos mal construídos”. Convém ainda destacar que tais epígrafes, além de apontar para o caráter dialógico, pertencem a uma existência concreta (escritores, escritoras, advogados, advogadas, filósofos, políticos, padres, ativistas antigos e contemporâneos ao momento histórico ali representado), enquanto que nas cartas, os sujeitos e as sujeitas dos episódios relatados, destinatários, destinatárias e remetentes, são indivíduos ficcionalizados, originários da realidade, que representam uma coletividade na situação que descrevem, porque o episódio ali relatado pode ser o mesmo de outros sujeitos e sujeitas residentes no âmbito espaço/tempo ali configurados alcançando, por isso, sua universalização, uma vez ultrapassa a esfera regional/nacional. Nesse sentido, a escrita ou o escrever, enquanto fenômeno da linguagem, como explica Foucault, é, pois, “mostrar-se”, dar-se a ver, fazer aparecer o rosto próprio junto ao outro. E deve-se entender por tal que a carta é simultaneamente um olhar que se volve para o destinatário (por meio da missiva que recebe, ele sente-se olhado) e uma maneira de o remetente se oferecer ao seu olhar pelo que de si mesmo lhe diz. De certo modo, a carta proporciona um face-a-face. (Foucault, 2006, p. 150).
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