316 Sara Beatriz Guardia cujo efeito foi o aprofundamento da marginalização de amplos setores das classes subalternas, mantidos distantes do mercado de trabalho e insulados socialmente em seus guetos, sem contato com os sindicatos e com os partidos de esquerda, então severamente reprimidos, de onde lhes poderia provir uma coordenação para a sua energia participativa e uma agenda motivacional sustentada em valores ético-morais secularizados, democráticos e republicanos. A esse isolamento somou-se, ademais, a abstenção e/ou incapacidade da Igreja católica em concorrer com as novas agências da fé no recrutamento dos setores subalternos, especialmente depois de a hierarquia católica ter abandonado o trabalho evangélico conduzido tanto pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEB) quanto pelo movimento da Teologia da Libertação, que animaram, durante algum tempo, “a ida ao povo” de uma fração dos intelectuais católicos com formação de elite, visando assentar ali a vontade da autonomia e da participação cívica democrática e republicana. Mais ainda, quando se institucionaliza a democracia política, a formalidade com que ela se apresenta face à questão social, em razão de uma política desastrada conduzida pelas lideranças políticas de esquerda no curso dos anos 20032016, que permitiu que essas forças de adesão autoritária e neoliberal estejam em vias de conquistar o governo na sucessão presidencial corrente, o sentido da vida republicana democrática, sua linguagem, valores e procedimentos, se vê esvaziado de substância, particularmente entre os mais desprotegidos socialmente, inclusive pela ausência orgânica dos partidos de esquerda e do sindicalismo que, agora, mesmo sem conhecerem restrições à sua atuação, deles se mantêm distantes. É daí que se estabelece a fratura entre o mundo popular e os personagens e instituições que deitam suas raízes na tradição - laica e religiosa - da república democrática brasileira, favorecendo a emergência social e política dos evangélicos como portadores in nuce de uma ruptura com as matrizes motivacionais não apenas de setores especí"cos das classes subalternas, com seu ethos fortemente orientado para o indivíduo em detrimento dos valores republicanos e democráticos comunitários, ainda dominantes, de modo geral, em sua formação, como também na sociedade inclusiva, a se fazer valer a candidatura presidencial de Bolsonaro, que fatalmente concedera uma abrangência a esse discurso, inédita entre nós. Não por acaso, portanto, o tipo de apropriação da política realizado pelos evangélicos, se tem mantido ao largo dos temas da agenda clássica republicana. Não se trata, em que pese à mesma forte interpelação da inspiração bíblica, de nada que relembre a chamada “revolução dos santos”, fermento das lutas contra o absolutismo na Inglaterra do século XVII, com os seus ideais de comunidades igualitárias e autogovernadas, de uma esfera pública tecida diretamente pelo
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