7 Ensayos 90 años

310 Sara Beatriz Guardia Assim, Mariátegui procurou analisar como os mitos do tawantinsuyu foi utilizado por Haya para criar uma especi"cidade aprista que coincidisse com uma especi"cidade da nação peruana. Práticas rituais, gestos, valores, símbolos foram retomados, de forma variavelmente arbitrária, para construir esse mito que gerava novas ambiguidades, e que constituiu, à diferença do aprismo, um empecilho para a própria sobrevivência do ideal do tawantinsuyu após Haya. O que está no cerne da re#exão de Mariátegui são as possibilidades de uma nova visão do trabalho que possa contribuir para a propositura de um socialismo moderno e, dessa maneira, alcançar um efeito de massa. Portanto, o que está em debate em Mariátegui é que “O fator religioso” pode engendrar um fenômeno cultural que, em longo prazo, também tivesse repercussão sobre as estruturas econômicas, um novo éthos, que representa a quebra da visão colonialista do trabalho e da atividade econômica. A disposição interna do tawantinsuyu foi revolucionada e a dedicação ao trabalho tornou-se impositiva na lógica colonizadora. Mariátegui acredita poder identi"car as origens dessa revolução no tawantinsuyu, que dissociou, a atividade laboral da esperança de salvação religiosa que deslocou os mitos do mundo da vida do tawantinsuyu. Assim o tawantinsuyu transforma-se mais tarde em ponto de resistência ao utilitarismo, embrenhandose, como expectativa de um retorno aos mitos do tawantinsuyu, distanciando-se do mundo sistêmico e instrumental do capitalismo moderno. Nessa situação de desorientação cultural, Mariátegui esforça-se, nesse ensaio, para tornar a discussão objetiva e compreender os mitos. Ele o faz, por exemplo, em suas análises sobre a transformação do problema da terra, em seu ensaio sobre a problemática econômica, e no seu ensaio sobre o problema do índio, assim como em “O fator religioso”. Ao mesmo tempo, passa a tematizar a questão de com quais teorias e métodos a história poderia ser explicada e compreendida - discussão em que seu interlocutor é Karl Marx. E, por "m, ele se ocupa do problema de como se poderia levar uma vida digna e plena de sentido sob as condições da modernidade. De um ponto de vista teórico metodológico, “O fator religioso” de Mariátegui dá seguimento à crítica construtiva a Marx e ao materialismo histórico, que ele já havia iniciado em seus primeiros escritos durante o périplo europeu. Esse diálogo inclui uma crítica ao determinismo econômico e à compreensão teleológica da história. Para Mariátegui, a história não se constitui de progresso e libertação, mas é marcada por tendências de desenvolvimento, e também por acasos, ironias, paradoxos e consequências não intencionais da ação orientada ou não.

RkJQdWJsaXNoZXIy MjgwMjMx