313 Ponencias del Simposio Internacional 7 ensayos | 90 años Para além da unidade, da variedade e da permanência destas expressões etnológicas da humanidade, Mariátegui pressentiu que Frazer pretendia nos mostrar, ainda, uma progressão constante de formas rudes, sangrentas e perversas de conduta a formas cada vez mais puri"cadas e espiritualizadas. Colhe-se, por isso mesmo, em toda a obra certo otimismo que se explica habitualmente pela generosidade de Frazer diante da intelectualidade europeia do seu tempo. As barbaridades inenarráveis de então, que ocorriam principalmente no mundo colonial, não tinham nenhum eco ali. Daí a sabia leitura de Mariátegui que pretendia acordar o europeu e todos os demais colonizadores para a ferocidade contida em sua própria cultura bem como nessa atividade. Importa reter que essa percepção de Mariátegui acontece quase pari passu àquela desenvolvida pelo historiador francês Marc Bloch no seu Os reis taumaturgos onde a crença, bem difundida na Europa durante mais de meio milênio, de que os reis de França e Inglaterra tinham o poder miraculoso de curar, com seu toque, uma afecção da pele, as escrófulas. Do século XII até o XVIII, mas, sobretudo no tempo de Luís XIV - isto é, em pleno século do Iluminismo -, essa fé no “milagre do rei” tinha sido determinante na concepção da realeza. Assim, o que Bloch propõe é que, para estudar as monarquias medievais e do Antigo Regime, não bastam os tratados sobre o bom governo, nem as teorias do direito divino e do absolutismo, mas se deve considerar também aquilo que a modernidade não se atentou devidamente tal como as crenças e/ou as fábulas. O historiador deve valer-se de outras ciências humanas, como a psicologia, para sair do jogo entre os objetos tradicionais como as instituições e teorias, introduzindo como fator estratégico as crenças, que muitas vezes responde pelo sucesso dos poderes e doutrinas no plano da recepção, isto é, em política, no plano da obediência. Com Os reis taumaturgos nasce, então, um novo modo de pensar a história política: se um poder não depende só das razões que dá para se justi"car, mas igualmente das dimensões quase míticas, em que adquire obediência e apoio, o exame das crenças passadas constitui uma via privilegiada para compreender a realeza, nos tempos em que ela frequentava o sagrado. Por isso que Bloch vai buscar também em Frazer a inspiração para entender o poder de toque praticado pelos monarcas ingleses e franceses durante a Idade Média e até o século XVIII. Dizia à crença que os soberanos teriam o poder de curar os doentes de escrófulas, uma moléstia de pele então conhecida como “mal dos reis”. O tema permitiu adentrar terrenos desconhecidos da “psicologia religiosa”, bem como na seara das “ilusões coletivas”. Ao "m e ao cabo, Bloch reconhecia ter
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