236 Sara Beatriz Guardia sendo que já haviam sofrido o aniquilamento das características de suas relações sociais de produção durante a Conquista. A re#exão a respeito disso foi fortemente descrita na literatura peruana. Entre outros, Mariátegui apresenta-nos o trabalho do poeta César Vallejo. Vallejo é o poeta de uma linguagem, de uma raça. Encontra-se em Vallejo, pela primeira vez em nossa literatura, o sentimento indígena virginalmente expresso. (...) Vallejo, em compensação, consegue na sua poesia um estilo novo. O sentimento indígena tem em seus versos uma modulação própria. (Mariátegui, J. C., 1975, p. 222-223). Vallejo interpreta a raça num momento em que todas as nostalgias, pungidas por uma dor de três séculos, estão exacerbadas. Porém – e nisto também identi"camos uma característica da alma indígena -, suas lembranças estão cheias dessa doçura de milho tenro, que Vallejo degusta melancolicamente quando nos fala da “dádiva fácil dos milhos”. (Mariátegui, J. C., 1975, p. 226). Mariátegui evidencia que Vallejo utiliza-se do simbolismo, na sua obra, e este adequasse melhor que qualquer outro estilo, à interpretação do espírito indígena. O índio tem a tendência de exprimir-se em símbolos, devido a sua cultura. Por outro lado, Mariátegui salienta que a questão indígena emerge do problema econômico e social. A legislação criada na República, que segundo o pensador peruano era individualista em todos os seus aspetos, serviu para resguardar o latifúndio agrário. E mostrou-se forte diante da condenação da “comunidade” indígena, quali"cando-os como um atraso para o desenvolvimento econômico. Os dois fatores que se opuseram a que a revolução de independência de"nisse e abordasse, no Peru, o problema agrário – extrema incapacidade da burguesia urbana e situação marginal (...) dos indígenas -, impediram que, mais tarde os governos da República desenvolvessem uma política voltada, de alguma forma, a uma distribuição injusta e desigual da terra. (Mariátegui, J. C., 1975, p. 50). Mariátegui procurou em seus Sete ensaios, enfatizar que a transformação deveria conduzir a conservação no Peru. Nesse ponto reside sua crítica à política da aristocracia peruana, pois esta, como Mariátegui evidenciou, estava voltada para os ganhos referentes à renda e não com a estruturação da produção. O pensador peruano mostrou como se poderia estruturar um país, como se deveria retirar de sua força de trabalho e de suas riquezas o potencial para se desenvolver as forças produtivas. O exame de Mariátegui a respeito da realidade peruana deixou
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